Geodiversidade: conceitos e valores
de várias formas pelos vários autores que inicialmente o usaram. Em Portugal, o ICNF refere-se
atualmente à Geodiversidade como sendo: “ a variedade de elementos rochosos, minerais, fósseis,
falhas, dobras, formas de relevo e sequências sedimentares ou de solo, conjuntamente e em
inter-relação com os processos naturais e ativos, como por exemplo a erosão e os deslizamentos”
(ICNF, 2017).
atualmente à Geodiversidade como sendo: “ a variedade de elementos rochosos, minerais, fósseis,
falhas, dobras, formas de relevo e sequências sedimentares ou de solo, conjuntamente e em
inter-relação com os processos naturais e ativos, como por exemplo a erosão e os deslizamentos”
(ICNF, 2017).
Observando a evolução da consciência e preocupações sobre as questões ambientais ao longo das
décadas do século passado, vemos que mesmo quando já se revelavam algumas preocupações com
questões ambientais relativas à flora e fauna, ainda assim, durante décadas a importância da
geodiversidade continuou a ser esquecida ou ignorada, bem como as preocupações acerca da forma
de uso dos recursos geológicos. Brilha (2005) refere como as preocupações para com a
Proteção/Conservação da Natureza expressas por especialistas, primeiras associações ambientalistas,
ou em decretos-lei e outras figuras legislativas, na maioria das vezes não continham qualquer referência
aos recursos geológicos ou a algo que se pudesse associar ao que hoje se designa por geodiversidade.
décadas do século passado, vemos que mesmo quando já se revelavam algumas preocupações com
questões ambientais relativas à flora e fauna, ainda assim, durante décadas a importância da
geodiversidade continuou a ser esquecida ou ignorada, bem como as preocupações acerca da forma
de uso dos recursos geológicos. Brilha (2005) refere como as preocupações para com a
Proteção/Conservação da Natureza expressas por especialistas, primeiras associações ambientalistas,
ou em decretos-lei e outras figuras legislativas, na maioria das vezes não continham qualquer referência
aos recursos geológicos ou a algo que se pudesse associar ao que hoje se designa por geodiversidade.
Só muito recentemente se começou a tomar alguma consciência da existência e da importância da
geodiversidade.
geodiversidade.
Em Portugal, recentemente têm vindo a ser dados alguns passos no sentido da valorização turística da
geodiversidade, exemplo disso são os 5 Geoparques já reconhecidos pela UNESCO em Portugal, e
alguns projectos de carácter internacional, como por exemplo, a criação de uma parte do Trilho Internacional
dos Apalaches em Portugal.
geodiversidade, exemplo disso são os 5 Geoparques já reconhecidos pela UNESCO em Portugal, e
alguns projectos de carácter internacional, como por exemplo, a criação de uma parte do Trilho Internacional
dos Apalaches em Portugal.
Ainda muito há a fazer no entanto, e continuamos a ter os nossos Postos de Turismo e toda a documentação
a eles associada a dar primazia ao património construído e/ou religioso, com breves menções a partes da
biodiversidade, e muitas vezes um total esquecimento para com a geodiversidade, mesmo em locais onde
esta componente do património natural é particularmente rica e diversa. Urge por isso alertar e formar os
nossos responsáveis autárquicos, os profissionais de turismo e a população em geral para a correcta
valorização turística da geodiversidade.
a eles associada a dar primazia ao património construído e/ou religioso, com breves menções a partes da
biodiversidade, e muitas vezes um total esquecimento para com a geodiversidade, mesmo em locais onde
esta componente do património natural é particularmente rica e diversa. Urge por isso alertar e formar os
nossos responsáveis autárquicos, os profissionais de turismo e a população em geral para a correcta
valorização turística da geodiversidade.
Mas para além da valorização turística, existem também muitas outras formas em que a geodiversidade
deve ser valorizada.
deve ser valorizada.
Por exemplo, como sabemos, iremos também em breve ter de fazer uma forte, e de alguma forma abrupta,
transição energética, procurando o uso das energias renováveis como forma de reduzir substancialmente as
emissões de gases com efeito de estufa, que tanto contribuem para as alterações climáticas. Esta transição
irá necessitar de muitos recursos, entre eles muitos recursos geológicos, não só para a produção dos
elementos geradores de energia, mas também para o seu armazenamento. Uma das razões prende-se com
a forma não-contínua que a produção de energias renováveis assume (porque não está sempre sol, não há
sempre vento, nem as barragens têm sempre água que permita gerar energia). Isto obriga a que a energia
eléctrica tenha que ser armazenada. Por vezes isto pode ser feito através de barragens, pelo retorno da água
a uma barragem que se situa a montante e posterior nova descarga (sempre com os enormes impactes
ambientais associados às barragens, no entanto). Mas no caso do uso em veículos e aparelhos, será
necessário o uso de baterias. Muitas destas baterias têm na sua composição o lítio.
transição energética, procurando o uso das energias renováveis como forma de reduzir substancialmente as
emissões de gases com efeito de estufa, que tanto contribuem para as alterações climáticas. Esta transição
irá necessitar de muitos recursos, entre eles muitos recursos geológicos, não só para a produção dos
elementos geradores de energia, mas também para o seu armazenamento. Uma das razões prende-se com
a forma não-contínua que a produção de energias renováveis assume (porque não está sempre sol, não há
sempre vento, nem as barragens têm sempre água que permita gerar energia). Isto obriga a que a energia
eléctrica tenha que ser armazenada. Por vezes isto pode ser feito através de barragens, pelo retorno da água
a uma barragem que se situa a montante e posterior nova descarga (sempre com os enormes impactes
ambientais associados às barragens, no entanto). Mas no caso do uso em veículos e aparelhos, será
necessário o uso de baterias. Muitas destas baterias têm na sua composição o lítio.
A exploração do lítio tem suscitado muitas preocupações em Portugal, especialmente às populações que vivem
perto das futuras explorações. Estas preocupações devem-se sobretudo ao impacte que estas explorações
podem ter nas populações humanas, na fauna e flora, mas também na geodiversidade, incluindo aqui
preocupações com a alteração das características das paisagens, uso excessivo e contaminação de águas
superficiais e subterrâneas, outros fatores contaminantes, etc.
perto das futuras explorações. Estas preocupações devem-se sobretudo ao impacte que estas explorações
podem ter nas populações humanas, na fauna e flora, mas também na geodiversidade, incluindo aqui
preocupações com a alteração das características das paisagens, uso excessivo e contaminação de águas
superficiais e subterrâneas, outros fatores contaminantes, etc.
Assim se percebe, que há nestes momentos alguma consciencialização por parte da população portuguesa
do valor da geodiversidade. Mas quais são então os valores da geodiversidade?
do valor da geodiversidade. Mas quais são então os valores da geodiversidade?
Gray (2005) agrupou os valores da geodiversidade em:
- valor intrinseco;
- valores culturais (lendas, arqueológico/histórico, espiritual, sentido de lugar);
- valores estéticos (paisagens locais, geoturismo, atividades de lazer, apreciação remota, atividades voluntárias,
inspiração artística);
inspiração artística);
- valores económicos (energia, minerais industriais, minerais metálicos, minerais para construção, pedras
preciosas, fósseis, solo);
preciosas, fósseis, solo);
- valores funcionais (plataformas, armazenamento e reciclagem, saúde, cemitério, controlo de poluição, química
da água, funções do solo, funções do ecossistema, funções do geossistema);
da água, funções do solo, funções do ecossistema, funções do geossistema);
- valores científicos (investigação geocientífica, História da investigação, monitorização ambiental, educação
e formação).
e formação).
Aos serviços prestados pela geodiversidade pode também dar-se o nome de Serviços de Geossistema
(equiparando-os assim aos Serviços de Ecossistema) (Gray, 2005).
(equiparando-os assim aos Serviços de Ecossistema) (Gray, 2005).
Na verdade, a componente abiótica também faz parte dos ecossistemas. (Sharples, 1993). A Natureza
consiste nas suas componentes vivas e não-vivas, ou seja, bióticas e abióticas. O uso dos termos
biodiversidade e geodiversidade ajuda a transmitir e a compreender esta realidade, e pode ajudar a
desenvolver uma abordagem mais holística à Conservação da Natureza (Gray, 2005).
consiste nas suas componentes vivas e não-vivas, ou seja, bióticas e abióticas. O uso dos termos
biodiversidade e geodiversidade ajuda a transmitir e a compreender esta realidade, e pode ajudar a
desenvolver uma abordagem mais holística à Conservação da Natureza (Gray, 2005).
Não existe uma real separação entre os processos biológicos e os processos geológicos. Pelo contrário,
estes são interdependentes. A existência de biodiversidade deve-se também à existência de geodiversidade.
E se já anteriormente falámos sobre a nossa total dependência da biodiversidade, não será difícil compreender
que estamos, assim também, totalmente dependentes da geodiversidade.
estes são interdependentes. A existência de biodiversidade deve-se também à existência de geodiversidade.
E se já anteriormente falámos sobre a nossa total dependência da biodiversidade, não será difícil compreender
que estamos, assim também, totalmente dependentes da geodiversidade.
A conservação da natureza revela-se absolutamente necessária para a continuidade da existência de Vida
no planeta Terra, e, tal como refere Brilha (2002) “a real conservação da natureza só pode ser obtida se a
geologia for integrada na gestão das áreas protegidas com o mesmo nível de importância que a biologia e
todos os processos naturais forem considerados de forma una”.
no planeta Terra, e, tal como refere Brilha (2002) “a real conservação da natureza só pode ser obtida se a
geologia for integrada na gestão das áreas protegidas com o mesmo nível de importância que a biologia e
todos os processos naturais forem considerados de forma una”.
Esta conservação assume, no caso da geodiversidade, formas diferentes e complementares às que buscam
a conservação da biodiversidade. Num próximo artigo, iremos abordar a geoconservação e outros conceitos
associados à geodiversidade…
a conservação da biodiversidade. Num próximo artigo, iremos abordar a geoconservação e outros conceitos
associados à geodiversidade…
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRILHA, J. (2002). Geoconservation and protected areas. Environmental Conservation, Foundation for Environmental Conservation. 29 (3)
DOI:10.1017/S0376892902000188, pp. 273-276.
DOI:10.1017/S0376892902000188, pp. 273-276.
BRILHA, J. (2005). Património Geológico e Geoconservação. Palimago. Braga
GRAY, M. (2005). Geodiversity and Geoconservation: What, Why and How?. The George Wright Forum 22(3), Jan. 05
ICNF, Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (2017) - Património Geológico e Geossítios. Disponível em
http://www2.icnf.pt/portal/pn/geodiversidade/patrimonio-geologico . [Consult. 17 Nov. 2019]
http://www2.icnf.pt/portal/pn/geodiversidade/patrimonio-geologico . [Consult. 17 Nov. 2019]
SHARPLES, C. (1993). A Methodology for the Identification of Significant Landforms and Geological Sites for Geoconservation Purposes.
The Forestry Commission. Tasmania.
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Foto de: Quentin Dr on Unsplash, (Yosemite Valley, E.U.A.)
The Forestry Commission. Tasmania.
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Foto de: Quentin Dr on Unsplash, (Yosemite Valley, E.U.A.)

Muito bom texto, obrigado.
ResponderExcluirA citação de Brilha no entanto deixa-me dúvidas: "geologia for integrada na gestão das áreas protegidas com o mesmo nível de importância que a biologia", bom isto não é uma competição e partilho inteiramente da ideia de que devemos avaliar o ambiente no seu conjunto, incluindo a geologia e todos os processos naturais. Mas bom, nós somos biologia, e quando falamos em natureza pensamos em espécies animais, vegetais, enfim, em seres vivos. Claro que a biologia depende da geologia para sobreviver. Por outro lado a geologia não precisa da biologia para nada, basta olhar os restantes planetas do sistema solar. Mas fico um bocado de pé atrás com aquela frase, em última análise quando falamos de conservação ambiental o que queremos é defender a vida na Terra. A geologia é "só" o suporte essencial. Mas bom, isto não é sequer uma discordância com Brilha, é só uma forma de expor as coisas que me cria algum incómodo.
Gostei do texto apresentado. Alguns dos aspetos tratados, têm para mim muita pertinência, como a exploração de recursos naturais, nomeadamente a exploração de lítio.
ResponderExcluirTemos assistidos ao aparecimento de movimentos contra a exploração deste recurso que se tem tornado tão valioso. Sabemos que a sua exploração pode afetar a geodiversidade, principalmente com as alterações da paisagem que surgem neste tipo de explorações, a biodiversidade e a a qualidade de vida das populações locais, com um possível aumento da poluição das águas e dos solos e tudo o que isso acarreta.
Mas será que todas as pessoas que fazem parte destes movimentos, estão dispostas a mudar os seus hábitos, deixando por exemplo de usar aparelhos eletrónicos como os computadores e telemóveis?
Se considerarmos que é de grande importância a conservação da geodiversidade e da biodiversidade, então temos que levar estes movimentos de cidadãos a deixarem se ser apenas do contra (oposição à exploração) e passarem a ser movimentos de cidadãos que controlam as explorações. Se as populações exigirem que as explorações sejam feitas de acordo com as normas de proteção do ambiente, poderá ser possível que a qualidade de vida das polulações locais se mantenha, e também, se consiga que a godiversidade e a biodiversidade não seja ameaçada.
Olá,
ResponderExcluirSe tiveres interesse, numa publicação mais recente (2ª edição do livro de 2005, publicada em 2013), Gray atualiza a sua definição de valores para a geodiversidade, tendo por base os serviços de ecossistemas definidos pelo Millenium Ecossystem Assessment (MA, 2005) para a biodiversidade.
Até breve,
Bom dia Carla, achei muito interessante, bem estruturado, a questão do lítio muito oportuna, e acima de tudo uma foto magnífica .
ResponderExcluirSílvia Moutinho
Olá.
ResponderExcluirTrazer a lume o tema do litio é muito interessante, não só pelo que já foi referido mas também no contexto histórico. Se recuarmos um pouco no tempo é muito interessante verificar que a maioria dos manifestos populares mais ou menos organizados estiveram associados à exploração mineira.
- feldespato, ouro, petróleo, caulinos no centro, urânio no centro e em Nisa, amianto -
Destas movimentações , talvez a mais antiga seja "O pó Negro de Aljustrel" que remonta ao motim de 1855 e mais emblemática a "Guerra dos Caulinos" em Barqueiros onde, inclusive, morreu um manifestante no confronto com a GNR em 1989. Estes e outros manifestos foram surgindo localmente, desarticulados entre si pois em cada caso falava quem sofria. O caso do Lítio, enquanto recurso geológico, é talvez o primeiro a mobilizar a população em geral , consequência de uma rede de informação mais rápida mas, também é subsidiária da consciencia ambiental que lentamente se vem disseminando e que apela à reflexão critica do real valor que pode constituir uma paisagem para uma determinada população.